sexta-feira, março 18, 2005

A Prima Vera

Há 20 anos era uma prima bastante pontual, que chegava aí por volta do dia 21 de Março.

Vinha lá da terra dela, ninguém sabe bem qual; dizia-se que era lá para os lados da Parvónia. Ninguém sabia como viajava, mas eu desconfiava que fosse de comboio e que a prima saía numa estação misteriosa, do género do Entroncamento.

Acabava por chegar de surpresa, sem avisar a hora de chegada por SMS ou Messenger, embora tivesse mandado à frente alguns sinais que se iam insinuando na nossa percepção embotada de urbanos mundanos mais ou menos depressivos. Ninguém se apercebia muito da sua chegada e continuavam a ir às suas vidas como se nada fosse. Não era assunto de noticiário, mas todos sabiam que chegara e todos se comportavam de modo enigmático. Andavam estranhamente animados, de costas mais erguidas, com o passo mais leve e estugado, e até - ó calamidade! - se atreviam a sorrir.

De súbito estava lá.

Era uma criatura estranha, a prima Vera. Cheia de contradições. Era discreta, mas espalhafatosa, humilde mas pomposa, com os seus modos desempenados e desabridos de moçoila da província que até causavam algum embaraço à gente da cidade. Lembro-me que se vestia muito mal, às três pancadas, de cores berrantes, e até à distância se adivinhava a presença. Sobretudo pelo cheiro. Era assim uma fragância urbano-incomodativa; entre o conhecido e o dificilmente adjectivado, entre o acre e o doce, entre o áspero e o enjoativo, entre o rude e o sofisticado, entre o pão acabado de cozer e a relva acabada de cortar. Nunca ninguém soube descrever precisamente as suas qualidades organolépticas, muito embora se tenham escrito volumes enciclopédicos sobre o assunto.

Todos lhe chamavam simplesmente cheirinho.

Texto: Luciano Barbosa, Líder Reporter Estrábico